Tuesday, September 30, 2008

meu jardim.


Meu Jardim
Vander Lee
Composição: Vander Lee

Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho

Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim



Essa letra é meu pranto de vida neste meu momento. Momento de transição, de tomar conta do que é meu. Da minha alma velha e sabida de dores familiares.
Retornos do mundo em nós. Capas da vida que pedem o imperativo do amor.
Bengalas de afeto mal dividido e que necessita ascese.
A vida e seus mimos terráqueos impelindo-nos a um jardim mais cuidado.
Cuidados comigo, cuidando do outro. Nascendo comigo, vivendo pro mundo.
Tempo de podas. Tempo de lida. Tempo de tourada.
Fins da emoção. Inícios de mim. Pedágios para o amor.
Para a dor de ser viva.
Sentir sem tolher. Tolher sem gritar.
Escutar o vagido dos indefesos.
Perdoar o que não pode vingar.
Terra. Flores. Frutos.
Espinhos.

Thursday, September 25, 2008

23 anos.


Meu aniversário.
Esse ano veio com o gosto de sangue. Deve ser por minha intimidade triste já de algum tempo, mas nada como a vida para nos amadurecer aos poucos. Nada como esses golpes certeiros que nos fazem alçar vôo em tempo mais breve. São em verdade, nossos maiores presentes, nossas maiores alegrias travestidas de dor.
Não é fácil viver, todo mundo sabe. Não é fácil ser feliz, dá trabalho; exige tato, exige paladar.
Sentir os gostos da vida, cada um em sua especialidade de nos sustentar, enquanto seres espirituais vivendo na passagem por este mundo.
Seres de Deus, vivendo no mundo.
Vou vivendo, tentando encontrar minha paz, tentando ser uma pessoa melhor, embora com tantos erros marcados no coração das pessoas.
Vou tentando existir ...

Monday, September 22, 2008

Podas.


A poda das pessoas em nós.
Alguns nos podam o orgulho, alertando- nos para o verdadeiro sentido do amor.
Outros nos podam na vaidade, fazendo-nos ver além das aparências do mundo.
Também existem pessoas que nos poldam com o simples gesto de um desamor ou de um amor que sempre fica pra depois.
Tem pessoas que somente crescem pra nos fazer bem quando podadas. Já outras partem com qualquer mudança na estrutura da planta.
Assim vivemos a vida com seus intransferíveis limites.
Assim podamos também.

Saturday, September 20, 2008

No Rancho Fundo


No rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo
Onde a dor e a saudade contam coisas da cidade
No rancho fundo, de olhar triste e profundo
Um moreno conta as mágoas tendo os olhos rasos d'água
Pobre moreno, que de tarde no sereno
Espera a lua no terreiro tendo o cigarro por companheiro
Sem um aceno ele pega da viola
E a lua por esmola vem pro quintal deste moreno
No rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo
Nunca mais houve alegria nem de noite nem de dia
Os arvoredos já não contam mais segredos
E a última palmeira já morreu na cordilheira
Os passarinhos internaram-se nos ninhos
De tão triste esta tristeza enche de trevas a natureza
Tudo por quê? Só por causa do moreno
Que era grande, hoje é pequeno para uma casa de sapê


Acho linda essa letra. Ela fala tanto de mim, de você, do mundo.
Fala de tristeza. De recomeços.
De saudade. De dores continuadas.
Da Natureza e seus ciclos.

Hoje me faltam as palavras para expressar o que sinto. Hj eu me falto. Estou em falta.
Perdi minha tristeza em meio a tudo isso e só me restou a solidão.
Uma dor aguda e só minha. Anestesias de Deus na gente.
Só quero morar no interior do meu interior ...

Wednesday, September 17, 2008

5 anos de Point.


Point,

Até parece aquele longínquo ano de 2005 quando olhei pra vc e senti que ficaria comigo até vc ficar velhinho e partir deste mundo.
Amigos como vc, são para toda uma vida.
Amores como vc, não me canso de amar.
Perdoe-me pela falta de prioridade em estar com vc.
Saiba que, mesmo ,por vezes, eu estando longe, vc nunca será abandonado ao relento neste mundo.
Terei sempre braços fortes para tratar vc e não permitir que ninguém o machuque.
Parabéns pelos 5 anos de vida!
Amo você meu filho amado.

Lugares.


Aonde ir.
Cuidado que não cabe na necessidade do outro.
Outro que não enxerga cuidado em si.
Vento que leva o que necessita ser levado.
Chuva que molha a terra, trazendo talvez novas flores.
E frutos, quem sabe.
Coração que sentia ser pedaço do meu amor, perdido.
Amor que era pedaço do meu coração, cortado.
Perdido. Cortado. Amado. Ressarcido.
Não sei. Pouco sei. Melhor não saber.
Deixo o tempo fazer cair a última gota de orvalho.

Monday, September 01, 2008

Olhe.


Olhe para os que seguem insatisfeitos - é coração em falta, - porque falta amor.
Olhe para os que seguem cabisbaixos - é coração triste - cheio de vazios.
Olhe para os que seguem sorrindo demais - é coração palhaço - que vive pro outro sorrir.
Olhe para os que seguem enraivecidos - é coração com cancêr - que vive na mágoa.
Olhe para os que seguem carentes - é amor em desperdício - que vive em isolamento.
Olhe para os que seguem orgulhosos - é amor avarento - que vive sem pedir.
Olhe para os que seguem sós - é amor sozinho - que vive na solitária.
Olhe para os que seguem felizes - é amor saudável - que vive de intimidade.
Olhe para os que seguem reclamando - é amor pedinte - que vive de misérias.
Olhe para todos os amores que passam travestidos das mais inimagináveis vestimentas.
Olhe para o amor - ele sempre passa por você, basta que você o toque.

Saturday, August 30, 2008

tristeza dos olhos


A tristeza das pessoas está nos olhos.
Num olhar cansado e distante.
Num sorriso forçado e sem viço.
Numa palavra que escapa falando do sofrimento vivido.
As pessoas estão nos olhos da tristeza.
Tristeza que se esconde. Que agride a quem olha com amor. Tristeza que geme calada.
Ser triste na dor de quem é triste na vida. Olhar o outro como se ele tivesse direito a sofrer, a falar, a gemer, a chorar, a ser.
Ser sem cobranças. Sem reclamos de perfeição.
Apenas existir em si mesmo sem a sombra de quem já cresceu.
É difícil crescer. Não exija de uma criança que não chore.
Não exija de um adulto ser forte o tempo todo.
Permita que o outro chore e viva ...
e sobreviva em si para si.

mundo sem amor.


Hoje tive vontade de ir embora daqui e voltar para o meu mundo. Meu mundo bom. Onde os sentimentos fazem sentido. Onde a dor é uma estranha. Onde a vida de dentro se desvela.
Onde criança é criança, e não sofre a dor de quem já está pronto para sofrer.
Onde os animais são amados em sua inocência e não desconsiderados.
Onde as aparências são apenas o que se pode ver e não o que se é.
Onde o amor é livre e sem amarras. Onde ele não faz penar, nem gemer.
Onde Deus vive ... onde a vida sobrepuja.
Vou voltar ... não quero mais viver num mundo sem amor.

Sunday, August 24, 2008

Aonde Deus possa me ouvir


Onde Deus possa me ouvir

Sabe o que eu queria agora, meu bem...?
Sair chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desegano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém.

Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber

Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui pode sair.

Adeus...

Estou apaixonada por essa canção. Ela retrata momentos nossos da mais íntima solidão. Uma solidão sadia que nos leva ao mais alto.
Experimentamos a solidão desde que saímos do útero materno e ela se estende até o dia em que fechamos os olhos para este mundo. No entanto, têm pessoas que parecem tornar a solidão de existir mais branda, mais suportável.
Essas pessoas são dependentes do nosso amor para acolhê-las em nosso ninho.
Pessoas raras, mas que são tão vivas em amor, que o mundo delas parece escapar a um olhar menos atento.
Pessoas que já perpassaram solidões tão agonizantes que já sabem procurar Deus.
Certa vez Chico Xavier perguntou a Emmanuel porque as pessoas não acreditavam em Deus, e Emmanuel sem titubear, respondeu : - Porque elas ainda não sofreram o bastante.
Acho que essa fala sintetiza o que é viver.

Monday, August 18, 2008

Frio


Hoje acordei com tanto frio ... pus tantos cobertores, mas nada parecia aliviar. Era um frio de dentro, por dentro, para dentro, - de mim.
Têm dias que são de frio mesmo. Dias em que o abatimento do coração se faz perceber, e as sensações, e os sentidos, são mais indefesos. Onde não há como se proteger do que dói e lateja, e cresce, partindo-se em nós.
Indo embora de leve,a vida se espalha por entre nossas agruras mais íntimas. E a continuidade do que é vão, quando vai embora, também maltrata.
Maltrato do sentir que nos devolve ao que é frágil. Ao que toca, sem fazer-se um presente. Ao que é ausente e anestésico. Ao que foi terminação nervosa.
A vida e suas idiossincrasias que nos transcendem ...

Monday, August 11, 2008

Quero voltar.


''Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada''
Clarice Lispector

Essa frase de Clarice nos retrata todo o cansaço do mundo, de ser gente - de ser humano.
Estou mesmo cansada de estar aqui. Quero voltar pra casa. Saudades de Deus, talvez. Saudades do mundo do meu coração.
Tem sido difícil me adaptar aqui. Tem sido penoso existir.
Nesse mundo de fantasia ...

Thursday, August 07, 2008

De repente!


De repente ... um vazio.
Saudades de uma mão. De um olhar cúmplice. De um abraço.
Saudades de mim, talvez. Saudades do que nunca pude ser para alguém.
Saudades de partir sem partir-se. De despedaçar, sem despedaçar-se.
De ser humano sem desumanizar.
Oco. Sem eco. Sem brilho.
Solidão que desarma. Que faz ir ao encontro ...
Pessoas sós demais. Pessoas tão circundantes que não saem de si.
Um momento de transição. Não minto quando digo que conheci muitas pessoas iguais.
O igual por vezes é o que nos faz ser diferente. Porque é insuportável sentir igual.
Sentir a indiferença de quem ainda não sabe nada sobre o amor ...
Graças a Deus, a vida é eterna ...

Tuesday, August 05, 2008

Meu bichinho bonzinho.


Recebi uma notícia que me levou para outro pensamento. Os acontecimentos da vida sempre nos fazem repensar tudo.
O cachorro de uma amiga aqui do prédio morreu, estava com 10 anos, a idade que Hully fará em outubro.
Essa notícia fez com que eu me esbarrasse na possibilidade de viver sem Hully. A partir desta possibilidade, o pranto se estendeu em meu coração.
Logo vc, Hully, uma relação de verdadeiro amor ... de tanto cuidado e compreensão.
Logo vc, que viveu comigo minhas piores fases, minhas piores dores, minhas torrentes de dor que mais se demoraram ...
Vc que sempre me olhou como niguém conseguiu até hj. Vc que conhece minhas doenças de ser humano falho ...
Vc que eu amei desde a primeira vez que te vi ...
Vc sempre foi tão forte ... até hj nunca adoeceu ... acho que é porque vc tem tanto amor, que não há espaço pra raiva, nem ressentimento, nem nada que faz, nós humanos, nos destruirmos.
Vc é amor puro em forma de bichinho.
Bichinho bonzinho, como te chamo, que Deus mandou especialmente pra mim, para que vc me curasse da dor de existir sozinha.
Obrigada meu anjo bom, que Deus possa ser misericordioso comigo e permitir que vc fique mais tempo aqui, me ajudando a ser feliz, a não desistir ... do amor.
Amo vc mais que tudo nesse mundo.

Sunday, August 03, 2008

Minha herança : uma flor


Minha herança : uma flor

Achei você no meu jardim
Entristecido
Coração partido
Bichinho arredio

Peguei você pra mim
Como a um bandido
Cheio de vícios
E fiz assim, fiz assim

Reguei com tanta paciência
Podei as dores, as mágoas, doenças
Que nem as folhas secas vão embora
Eu trabalhei

Fiz tudo, todo meu destino
Eu dividi, ensinei de pouquinho
Gostar de si, ter esperança e persistência
Sempre

A minha herança pra você
É uma flor com um sino, uma canção
Um sonho em uma árvore ou uma pedra
Eu deixarei

A minha herança pra você
É o amor capaz de fazê-lo tranqüilo
Pleno, reconhecendo o mundo
O que há em si

E hoje nos lembramos
Sem nenhuma tristeza
Dos foras que a vida nos deu
Ela com certeza estava juntando
Você e eu
(2x)


Encontrei tanta beleza nessa canção. Acho que ela retrata nossas tentativas de reencontrar alguém que amamos mas que parece tão distante de nós.
Todos temos dores. Todos temos amores.
Alguns sangram tanto em nós. Outros nos fazem tão humanos. Outros nos afastam para sempre do que pensamos ser o amor.
Assim a vida se deflagra em erros e acertos, em vontade de ser bom, de ser capaz.
Em vontade de trilhar rotas diferentes. Em escapar, por vezes.
Fugir de nós. De reflexos nossos.
É o fingir em nós pro outro que às vezes nos resgata para o que é verdadeiro, partindo do que é idílico somente.
A vida e suas maneiras de nos apontar caminhos, amparando-nos nos erros para que os acertos futuros tenham base.
Não se faz ninho em tempo de tempestade senão os filhotes ficam desabrigados na primeira chuva.
Cuidado com os presságios do tempo antes de fazer o seu ninho ... fique atento ...para depois não chorar a culpa de ter perdido todos os filhotes.
Não há espaço pra inocentes neste mundo. Há espaço pra adultos.

Monday, July 28, 2008

O tempo leva ...


As pessoas demoram em nós. Não adianta querermos abortá-las, elas sempre de alguma maneira estarão exoneradas em nós.
Exoneradas porque há algo faltante que existe em qualquer tipo de abrigo dado, de amor desdobrado, de doação destinada a quem quer que seja. Há sempre o vazio e o nada que não foi mitigado.
Há sempre a fome.
Fome de ser amado, de ser reconhecido.
Há sempre o que faltou numa relação primária e que a nobreza do que é atual exige.
Há sempre o significado do que foi ignorado que volta para nos cobrar presença e cuidado.
Há o paraíso perdido de Proust, paraíso que nos foi usurpado pelo vir a ser adulto.
Somente a criança não suporta a frustração; o adulto sobrevive a partir dela para o mundo.
Crescer é suportar ser frustrado o tempo todo. É amar quem eu sou, mesmo incapaz de despertar o amor de quem quero, de quem amo.
Amar é lidar com o mundo velho em si com a pureza de uma criança que apenas quer desbravar ...
Viver é mitigar a dor de cada dia mais pungente, de cada noite mais gélida, de cada madrugada ao relento.
É recriar o próprio coração mesmo que a obra de arte não seja compreendida.
Morrer é desviar o percurso que sentimos ser o nosso; é não querer ir pelo mesmo caminho apenas porque já o conhecemos falho. Esquecendo que nossos caminhos também são humanos. Que falam de nós, que nos denunciam. Quando os erros são óbvios, quando são os mesmos, quando são simplesmente os nossos, de todos os dias, de todas as noites.
É essa eterna passagem pelas pedras em nós que faz com que um dia elas sejam lapidadas e se transformem em pedras preciosas.
No entanto, só são preciosas porque já foram pedras primitivas um dia ...

Monday, July 21, 2008

O sangue do outro.


Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de "meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

Caio Abreu

Existem pessoas que doem mesmo em nós. Pessoas em que a dor não cabe em nosso peito por mais que queremos extirpá-la e alocar dentro de nós para protegê-las.
Pessoas que parecem não parar de sangrar e que a emoção sobrevive muito ferida.
Pessoas em que o limiar de dor e solidão são tão profundos, que nem podemos apreender ...
Essas pessoas estão nas ruas, nos shoppings, dentro de nossa casa, na igreja, num barzinho, num show. Essas pessoas estão na escola, no trabalho, no mundo. Elas seguem em frente porque não há outra maneira de se viver.
No entanto, enxerguem essas pessoas. Elas precisam do seu olhar.
Escutem essas pessoas. Elas precisam desabafar.
Amem essas pessoas. Elas precisam desesperadamente de amor.
Não as isolem. Não as queiram longe pelo assombro de dor que provocam.
Às vezes só basta querer fazer contato ...
Basta querer saber ...

Saturday, July 19, 2008

Um cãozinho.


Um cachorrinho.
Que é novinho, alegre, ainda sem amargura ou sofrimento diante do mundo, das pessoas. Que acredita, confia no amor.
Que a gente brinca, se enche de vida, de carinho.
E depois coloca no escuro, no quarto dos fundos.
Até chegar o outro dia de brincar novamente.
Até que o cachorrinho cresce, e cansa de brincar.
Ele quer existir.
Mas não tem espaço mais pra ele, porque ele cresceu.
e então se desfazem dele.
O amor resultou inútil, não há mais espaço agora em casa.
Afinal, as crianças já cresceram.
Afinal, o amor desse bicho já se tornou uma rotina.
Afinal, amores óbvios nunca são valorizados.
Afinal, cachorro sofre. Gato é quem é feliz.

Thursday, July 17, 2008

A inconcretude do amor.


Prova de um amor.
Amor posto à prova. Questão de olhar.
Dizem os sábios que amar alguém incondicionalmente provém da total inutilidade do ser amado. Amo porque você já não pode ser nada para mim. Amo porque o amor por você resultou inútil. Amo porque você precisa se reconstruir para poder construir algo em mim.
E dessa orfandade de amor, alguém se torna grande. Alguém cresceu em desalento.
Amar a vida. Amar o mundo. Amar as pessoas enquanto órfãos que somos, configura as nuances do existir.
Inexistência de ser humano, para a existência de um preencher, de um preencher-se. De um desfazer. De um desfazer-se.
Desmedido. Desprevenido.
Recostado ao vento.
Vento que assobia alto.
Que lampeja rumores de vida quieta.
Tempo que anuncia horizontes.
Que rompe ilusões.
Que faz amor com a brisa intocável.

Viver e suas estatuetas de vitórias e frustrações numa mesma vergastada. Vida que desnuda travessões, que pune mentiras, que desvirgina solidões.
Solidões travestidas de amor. Amores fantasiados de solidões.
Tempestades que nos levam. Que nos trazem de volta, em tempo vindouro.
enfim,
sobrevivência.

Sunday, July 13, 2008

Ausência de choro.


Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora. Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.
Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos começa a passar.Caio Fernando Abreu